Estórias Gerais

Começo a seção de resenhas com uma obra que não é de forma alguma um lançamento, mas que não poderia deixar de fora. Tive uma sensação engraçada ao ver a capa de Estórias Gerais pela primeira vez. Já conhecia de longa data o trabalho de Flávio Colin, desde a quadrinização da guerra dos farrapos escrita por ninguém menos que o escritor Tabajara Ruas no início dos 80’s, e não conhecia nada sobre Wellington Srbek, além de um número da revista Caliban. A alusão a esse antigo e importante trabalho de Colin não é gratuita. Se o caro leitor tiver acesso a uma edição de A guerra dos Farrapos, irá notar a semelhança proposital entre as capas das duas obras.

O livro me chamou bastante a atenção, mesmo antes de lê-lo. A edição é linda e toda feita em um papel reciclado, além do efeito “envelhecido” da capa, que deu uma textura própria à obra. A história de como a obra chegou a ser finalmente publicada no Brasil, 10 anos depois de concluída, e já editada na Europa é uma “estória” à parte, é contada pelo próprio escritor no blog mais quadrinhos.

Já a história em si gira em torno de um conflito entre bandos de cangaceiros, o de Antônio Mortalma e o de Manuel Grande, em uma cidade do sertão brasileiro na década de 1920, investigado por um repórter da “cidade grande”.

A relação com algumas obras são inevitáveis como Grande sertão: Veredas, e outras que versaram sobre o sertão e o sertanejo, como às que o próprio autor faz menção em sua introdução. E um dos elementos presentes nas obras citadas, que é muito bem aproveitado por Srbek, é a introdução do maravilhoso em um ambiente real. Colocados de maneira direta mas sutil, as ambigüidades de fundo religioso e mitos do folclore oral são muito bem aproveitados e, o que é ótimo, não são exacerbadas nem desfeitas. Demônios e milagres caminham juntos com uma realidade muito crua sem necessidade de justificativa que os anule ou crença que os comprove. Pelo contrário, se enriquecem mutuamente enquanto contradição inerente à cultura popular, o que é reforçado pelos elementos de atemporalidade da obra. Buritizal, cidade fictícia, é qualquer cidade, assim como o sertão “do tamanho do mundo” e os anos vinte indistinguíveis do fim do século XIX até os anos cinqüenta do século XX são qualquer tempo. Um mundo.

Cada capítulo é centrado em um dos principais personagens da trama, e unidas no fim, montando um todo bastante consistente. Ao dar voz a todas as partes que montam a trama, Srbek evita a unilateralização e conseqüentemente a simplificação da história. A premissa é antiga, mas imortal. A jornada a um mundo desconhecido que acaba por transformar o viajante, referência clara à Odisséia de Homero (o nome do repórter é Ulísses, por exemplo). Ulísses chega confiante em sua civilização e avesso a “rusticidade” do povo e acaba por se envolver tão diretamente quanto pôde no desenlace da trama. A diferença de suas anotações no início e no fim da obra delineiam essa mudança. Infelizmente suas anotações não aparecem durante essa mudança. No entanto, como somos brindados com essa imersão no mundo sertanejo, talvez seja lícito dizer que a mudança do viajante não ocorre diante de nossos olhos, mas em nós, leitores.  Obra obrigatória.

Wellington Srbek – Roteiro
Flávio Colin – Desenho
R$: 24,00
Conrad Editora

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