
Já ouviu alguém reclamando da violência do presente dizendo que no “meu tempo não era assim”, ou algo semelhante? Bom, não é verdade. O tempo dessa pessoa era tão ou mais violento, safado ou absurdo, que o nosso. Um exemplo? Eu era guri nos anos oitenta. E lembro que o mundo não era nada inocente. O discurso oficial era. Todos muito felizes e ordeiros, coloridos, divertidos. Por baixo dos panos, é claro, a coisa fervia. Paranóia nuclear, violência urbana, etc. Isso na parte ruim. Na parte boa havia a contracultura, o underground, o movimento punk, poesia, mail art, pintura e até quadrinhos (tudo isso se misturava), etc.
Qual não foi minha surpresa ao ver, em meio àquele mar de tranqüilidade escapista, a revista Chiclete com Banana. E depois, seus irmãos, Circo, Piratas do Tietê, Geraldão. O contraste com os quadrinhos normais era gigantesco. Preto e branco, e cru. Tudo o que o entretenimento oitentista ocultava, a paranóia, o niilismo, a vida urbana, a ironia, a nudez, o sexo (não pornografia, mas a constatação da existência de erotismo), o deboche, o trocadilho nonsense, a própria contracultura, estava lá. Ah, claro, tudo isso em histórias muito engraçadas, e muito boas, feita por gente que entendia do riscado (com trocadilho).
Eu e meu irmão líamos as do meu tio. Não tínhamos dinheiro nem idade para comprar. O tempo passou, e ver que as mesmas histórias ainda são reimpressas em caros especiais me fazem pensar algumas coisas. Uma delas é que as histórias são boas mesmo. Não eram só engraçadas por serem escrachadas, ou diretas, ou em comparação com o quadrinho “standard”. Eram boas como história em quadrinhos, traço, ritmo, tempo, estrutura. Outra é que esses caras têm (ainda que pouco) algum reconhecimento pelo que fizeram, e fazem, já que continuam a produzir, e serem reimpressos. Outra ainda é que há interesse do público por isso (tanto que as editoras que os relançaram não são de fundo de quintal).
Mas o que essas republicações mais me fazem pensar é no possível porquê de não existir uma revista nova desse pessoal ainda ativo e querido do público nas bancas. Material inédito, papel normal, preço médio. Quem deu o passo adiante naquele tempo? Os próprios autores investiram na revista, ou algum editor teve o insight e a cara dura? Alguém daria um passo desses novamente?

One Comment
Chiclete com Banana foi a melhor revista com conteúdo nacional de todos os tempos. Até hoje ainda vasculho os sebos pra completar minha coleção, mas é difícil, tá cada vez mais raro.
Quanto à sua pergunta final, eu acho que foram os próprios autores que meteram a cara a tapa pra lançar as publicações naquela época. Lembro que o que quebrou o Angeli, na época da Chiclete, foi o plano cruzado.
É difícil imaginar um cara como ele surgindo nos dias de hoje, metendo a cara, lançando uma revista assim. Eu não sei, posso estar muito errado, mas me parece que nossa época não permite mais esse tipo de coisa, parece que todos estão adormecidos, anestesiados, como diria a nossa professora Ana Luiza, lembra?
De repente me lembrei do Concrete, do Paul Chadwick, que é um herói ecológico. O que quero dizer com esse gancho forçado é que as bandeiras são outras e talvez desse nicho podem surgir outras publicações independentes e fortes, quer dizer, não só do ecológico, mas de outras bandeiras que poderão aparecer nessa época muito louca em que vivemos. Não sei se me expliquei, mas é isso.
Abração!